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outubro 05, 2016

4 anos depois...

Olá,

Parece que o blog já fez 4 anos..
Eu também fiz 4 anos de Farmacêutica, ontem, dia 4 de Outubro.
Há 4 anos tinha sido véspera do último feriado a 5 de Outubro (que entretanto foi retirado).
Este ano já temos direito à Implantação da República novamente.

Andei a reler há uns dias as primeiras publicações que aqui fiz e de como morri de pânico na apresentação da tese. A verdade é que sobrevivi e desde então tenho exercido a profissão que queria.

Passou algum tempo, mas não demasiado, e parece-me uma boa altura para recordar e fazer um balanço geral.

Não costumo falar/escrever muito sobre isto em nenhum local público, mas também não tenho nada a esconder.
Quem me conhece sabe que fui para Ciências Farmacêuticas porque realmente queria este curso. Verdade que inicialmente pensei que ia para poder seguir investigação, investigação bioquímica (quando percebi que era a área que mais gostava, já estava na faculdade). Mais tarde percebi que a vida de investigador era tudo e mais alguma coisa. Muito longe de descobrir a cura para todas as doenças depressa e eficazmente sem milhões de tentativas, horas sem dormir, fracassos acumulados, aulas para dar e artigos para escrever. A juntar o salário não tão bom e os horários instáveis.
Estava eu pelo 3º ano, talvez, e percebi que queria uma coisa mais rotineira e dinheiro certinho ao fim do mês. (Mal eu sabia que as coisas estavam a mudar muito "cá fora" no mundo do trabalho).
Achei que a farmácia comunitária fazia sentido naquilo que eu esperava futuramente, no que toca a horários (o normal era as farmácias não trabalharem aos fins-de-semana e feriados, fecharem às 19h ou 20h e algumas também para hora de almoço, exceptuando quando estavam na escala de serviço nesse dia) e ordenados (gordinhos, os melhores da classe farmacêutica, com subidas anuais).

Como não conhecia muito da realidade sem ser ir à farmácia com a minha mãe quando vinha do médico com alguma receita, (sim porque na faculdade não se fala muito das farmácias, pelo menos não até chegarmos ao 5º ano, que por sinal é o último, e mesmo assim não dizem nada muito concreto). No Verão de 2010 fui à farmácia ao pé da casa da minha mãe pedir um estágio extra-curricular, como aluna do 3º ano, para ver se aprendia mais qualquer coisa sobre o que eu tinha ideia de fazer uns anos mais tarde.


Devo dizer que me apaixonei pela equipa da farmácia :)
Sempre bem dispostos e companheiros, receberam-me tão bem, que 2 anos depois lá estava eu para fazer o estágio curricular de 4 meses.

Este primeiro estágio foi uma coisa simples, conheci o Sipharma Classico, com o seu aspecto "ms dos", dei entrada de 1 ou 2 encomendas, verdade seja dita na altura não percebia nada daquilo. Das coisas que me lembro melhor era não perceber como é que eles sabiam os produtos que iam precisar de etiqueta... provavelmente porque na faculdade não nos explicaram o conceito de medicamento de venda livre. Se explicaram peço desculpa porque ou faltei ou estava distraída.
Percebi que os medicamentos genéricos não eram apenas o nome da molécula numa caixa branca sem marca, mas sim que havia milhares de laboratórios diferentes que fabricavam o mesmo genérico a preços variados. Apanhei a altura do aumento do IVA de 5 para 6% nos medicamentos e com isso alterações de preços de todas as caixinhas possíveis e imaginárias.
Entre várias coisas, arrumei, arrumei e arrumei muito. Foi giro mas não fantástico, de qualquer forma estava longe de ser aquilo que fazemos todos os dias.

Quando chegou a altura dos estágios, tínhamos opção de 2 meses hospitalar + 4 meses comunitária ou 6 meses comunitária. Eu estava bastante inclinada para fazer só comunitária, o hospital não me dizia nada, pouco sabia sobre o assunto. Lá está não me lembro de na faculdade dizerem o que os farmacêuticos fazem nos hospitais.. Alguém, que não me lembro, disse-me que não deveria desperdiçar a oportunidade de fazer estágio no hospital, pois se um dia mais tarde quisesse ir para aquela área sem ter o estágio seria bastante complicado.
Lá fui, escolhi o melhor que pude pela minha colocação na lista. O objectivo era fazer tudo seguido e terminar o curso na 1ª leva de estudantes de Lisboa a saírem para o mercado de trabalho. Sim na altura estava horrível, por todos os lados se ouvia que já não havia trabalho, mesmo nas farmácias, que sempre tinha havido.
Consegui fazer o estágio hospitalar 1º, tal como queria, no Hospital de Curry Cabral.
E vá-se lá saber, adorei!
Não tinha qualquer noção do que se fazia e achei tudo espectacular, a equipa era simpática, não tão "família" como na comunitária, mas suficiente para nos sentirmos bem todos os dias. Éramos 4 estagiários e durante aqueles 2 meses andámos quase sempre juntos. Aprendemos imenso sobre anti-retrovirais e imunosupressores, mais uma coisa que não me lembro de falar quase nada na faculdade. Fomos a comissões de transplante e visitámos doentes pré e pós-transplante. Assisti a quimioembolizações (tratamento cirúrgico para certos tipos de cancro do fígado). Estudámos listas de medicamentos de doentes internados, vimos análises especificas e fizemos requerimento para tratamentos especiais. Falei ao telefone com um médico devido a um doente que estava a fazer doses tóxicas e ao mesmo tempo sub-terapêuticas de um determinado medicamento. E tantas outras coisas que eu não fazia a mais pequena ideia.
No final os horários também eram super simpáticos para se trabalhar mas azar dos azares, vagas cheias até rebentar as costuras.
Quando fiz o estágio de comunitária já conhecia mais ou menos os cantos à casa, aprendi a dar entrada de encomendas como deve ser e passado uns tempos comecei a atender as pessoas, a dispensar receitas e fazer alguns aconselhamentos pouco complexos. Tive o 1º impacto com a dermocosmética e odiei! Não sabia nada daquilo, na faculdade só quem tinha opcional é que aprendia coisas sobre essa matéria. No final acho que não correu muito bem.. vim de lá com uma nota bastante má (para as minhas expectativas) e achei que se calhar não servia para ser farmacêutica.

Foi uma altura extremamente depressiva, com a tese para acabar, o aproximar de começar a procurar emprego, sabendo que não havia nada...

Entreguei currículos pelas farmácias do conselho e esperei.. tive uma entrevista logo na semana seguinte, da qual fiquei sem resposta durante 2 meses..


Trabalhei no Toys'r'us entretanto e também adorei! O que posso dizer? sou maluquinha :P
A disponibilidade dos gerentes e responsáveis era extraordinária, os colegas eram super porreiros, e não éramos assim tão mal pagos como se pode pensar. Foi uma experiência óptima que terminou com uma prenda de Natal antecipada.

A minha 1ª entrevista afinal tinha dado frutos e quiseram contratar-me em Dezembro.


Lá comecei a trabalhar, o 1º dia correu mal! Não sabia onde estavam guardadas as coisas, sentia-me uma grande lesma a atender cada pessoa e quando não havia algum medicamento (coisa que não estava habituada) não sabia fazer logo pesquisa no fornecedor para dizer à pessoa que tinha para aquele dia logo a seguir a dizer que não tinha de imediato. Verdade seja dita que me senti atirada aos leões! Ninguém fez comigo uma visita guiada, ninguém me ajudou no 1º atendimento, mesmo sendo o meu 1º emprego. Com os dias fui melhorando, conhecendo os cantos à casa e até fiz aconselhamentos de dermocosmética (fiquei super orgulhosa de mim).
Eu Janeiro fui mudada para outra farmácia dos mesmos donos, pela explicação até me safei bem e consideraram que podia ir para essa onde a população era considerada mais exigente e estava aberta ao domingo.


E lá estive, na mesma farmácia desde Janeiro de 2013 até Fevereiro deste ano!
3 anos no mesmo sítio.
Aprendi tanta coisa... inicialmente éramos uma equipa pequenina (4 pessoas), tomámos conta daquilo o melhor que soubemos e pudemos até a falta de dinheiro quase levar a farmácia à falência. Eu e outra colega desistimos de trabalhar sem receber ou receber com 1 mês e meio de atraso e fomos embora.
Vieram novos donos e convidaram-nos a ficar, eu fiquei, ela não. O horário alargou das 9h às 24h todos os dias, a equipa aumentou para 6 pessoas.
Aprendemos a usar um novo sistema informático, a seguir objectivos de equipa e a habituar-nos a horários de sair tarde e a "levantar uma farmácia das trevas". E acreditem tentar reconstruir uma reputação é tão ou mais difícil como lidar com uma farmácia quase na falência. Criei uma 2ª família ali, passámos aniversários, feriados, jantares de Natal e passagens de ano.

Aprendi e aprendo todos os dias mais um bocadinho a ser Farmacêutica. Afinal parece que até sirvo para isto e a verdade é que adoro, mesmo com todos os pontos negativos.

A frustração de achar e sentir que não tínhamos qualquer valor enquanto trabalhadores fez-me querer ir embora e custou-me tanto "abandonar" a minha equipa, a minha 2ª família, na "um pedacinho minha" farmácia que me "viu" crescer e aprender tanta coisa que ainda hoje me lembro do aperto que senti quando lhes contei que ia sair.

Tentei uma coisa mais arrojada, mais aventureira, mas na verdade eu não sou nada aventureira... tive medo que o voo fosse demasiado alto e depois a possível queda seria desastrosa, que entretanto tenho as minhas contas para pagar e sou medricas.
Eu que nunca fui desconfiada de ninguém, desconfiei.. achei que não poderia ser tão bom, achei que podia ser enganada e depois não tinha forma de voltar a trás.
Eu que não tenho experiência nenhuma de vida achei que podiam estar a enganar a totó que acredita em toda a gente e fica entusiasmada com projectos novos. Amedrontei-me e voltei a correr "com o rabinho entre as pernas" e as "orelhas baixas" de tristeza por afinal não ser para mim, uma das coisas boas e inéditas que acontecem uma vez na vida e alguém aproveita a oportunidade.

Fui para uma nova farmácia, onde estou desde Março, inicialmente senti-me insegura, de não ser tão competente como achava que era. Ao fim dos 3 primeiros anos eu sentia-me bastante confiante daquilo que fazia e do papel importante que desempenhava no dia-a-dia da farmácia.
Agora a equipa é maior, estamos abertos 24h, 365 dias por ano. Eu era a pessoa nova que nada de importante tinha além de ser mais uma pessoa para rodar turnos e não ser tão pesado para os outros.
Passados estes quase 7 meses, ainda não estou "em casa" mas sinto-me parte da equipa. Continuo a gostar daquilo que faço apesar de às vezes estar rabugenta com o facto de termos um horário tão alargado. Até à meia noite também não era melhor em termos de horário, aliás perfeito, perfeito era até às 19h ou 20h e folga aos domingos, mas isso já há pouco.
Ainda assim há dias que vale tanto a pena fazer o que faço que tudo o resto não importa! :)

Passados 4 anos muita coisa mudou, a realidade de emprego na minha área está francamente melhor.
Tive 3 patrões diferentes e trabalhei em 4 farmácias.
Conhecia muitos doentes pelo nome e alguns infelizmente já morreram.
Aprendi a gerir uma farmácia com o mínimo dos mínimos e a engolir muitos sapos.
Conheci colegas fantásticos que vão ficar para a vida, esteja onde estiver.
Sinto que cresci bastante, e quanto mais cresço mais percebo que ainda sou "pequenina".
Se à 4 anos imaginava estar onde estou agora? Acho que não..
Até ponderei seguir a área da dermocosmética o.O (mas depois fiquei com pena de deixar de ser farmacêutica de medicamentos).
Mas uma coisa que queria consegui, trabalhar naquilo que gosto e para o qual dediquei 5 anos e meio da minha vida.

A ideia era uma publicação pequenina pois era, mas tal como há 4 anos atrás, eu continuo sem saber escrever pouco :P

Bom feriado!

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